segunda-feira, 11 de maio de 2015

" "

Nada mais lhe agrada. Coisas, pessoas, atos, festas. Sua vida gira em círculos enquanto o tempo passa mais rápido que sua percepção. Já está velho, cansado, sem nada. Seus almejos por objetivos tolos e sem sentido o impedem de progredir mentalmente. As pessoas o enganam com facilidade, tiram o maior proveito possível e o deixam de lado.

Nada mais lhe agrada. A percepção do exterior para com sua pessoa passa por batido por sua cabeça. Ele caga pra isso. Se finge de tolo enquanto usa mais drogas e busca o conhecimento final, mas enquanto sua visão das coisas não for alterada, o seu final será o caixão. O conhecimento tão almejado será deixado de lado juntamente com seu corpo, enquanto uma luz fraca irá perdurar.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Pesticida

- Renata Paz, vá até a sala três.

Receosa, ela levantou e caminhou com passos pesados até a sala. Parada de fronte à porta, bateu quatro vezes, como havia sido indicada. Uma fresta se abriu e ela adentrou. A sala fedia a mofo, era completamente escura e na sua frente havia uma silhueta de um homem gordo.

O que você quer? Perguntou o homem.

Ela disse: preciso de um serviço de limpeza, o mais rápido possível. 

- Qual o tamanho do problema?

Tremendo, abriu sua bolsa e alcançou ao homem uma foto. Ele a recolheu, analisou a foto por um minuto, fitou a mulher e disse seu preço. Renata silenciosamente acatou, alcançou lhe a quantia necessária e perguntou quando o serviço seria feito. O homem disse que em no máximo 2 dias tudo estaria certo. Ela sorriu tensa e saiu da sala.

Enquanto se dirigia para a saída do prédio, um turbilhão de pensamentos passavam por sua cabeça, se perguntando se fizera a coisa certa, se estava pronta para o que iria ocorrer e como seria sua vida a partir de então. Todas as respostas para as perguntas a assustavam. Já do lado de fora do local e dentro de seu carro, desabou no choro. Sua cabeça parecia pesar muito mais do que o normal, pois só conseguia olhar para baixo e chorar. Após uma hora, conseguiu se recompor e foi para casa.

Ao chegar em seu destino, ela respirou fundo e abriu a porta. Não havia ninguém em casa. Foi para o seu quarto, ligou para o seu trabalho alegando estar doente e não ter condições de trabalhar. Desligou o telefone e dormiu até o dia seguinte.

No outro dia, acordou com o seu marido a fitando. Ele estava com os olhos completamente abertos e vidrados nela. Com medo, Renata perguntou se estava tudo bem. Nenhuma resposta. Lentamente,  levou sua mão até o pescoço dele para ver se ele havia pulsação. Não sentiu nada. Então, num ato de desespero, empurrou o homem, que caiu da cama. Não haviam mais dúvidas, ele estava morto.

Ela saiu da cama, foi até o chuveiro e ficou por horas em baixo da água corrente, calada e com o olhar fixado na parede em sua frente.

Horas depois, o telejornal anunciava uma tragédia: Casal encontrado morto dentro de casa. Ambos envenenados, o homem estava no chão de seu quarto e a mulher dentro do banheiro. Não havia suspeito para o crime.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Sobre a mesa

A mesa da casa de João era redonda, e sobre ela haviam pratos, talheres, xícaras, leite, café, pão e manteiga. Após algumas horas, o seu conteúdo foi trocado. Colocaram copos, taças, garrafas, cinzeiros. 

Minutos depois, novamente trocado. Agora havia uma toalha estendida, fichas e baralho. Após algumas horas, uma arma se encontrava sob a mesa, na mão de alguém.

Minutos depois, sobre a mesa de João havia sangue, um corpo, desfibrilador e uma pessoa ajoelhada. Um dia depois, sobre a mesa estava João, mas não mais em sua casa.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Ira

Otávio não sabia, mas aquele dia ficaria marcado para sempre no resto de sua vida.

Acordou cedo, olhou para o lado e sentiu falta da presença de sua quase esposa. Foi até a cozinha, mas estava vazia. "Provavelmente ela foi até à padaria", pensou, enquanto voltava para o quarto para trocar de roupa. Vestiu-se com uma roupa quente e começou a preparar o café. A campanhia de sua casa tocou e ele foi verificar. Ao abrir a porta, o filho mais novo do vizinho estava com um grande sorriso no rosto e pedindo por uma doação para um projeto de sua escola. Otávio colocou a mão no bolso e entregou uma pequena doação para o guri, que agradeceu e se dirigiu até a próxima casa. O homem fechou a porta e voltou para o seu café. Haviam se passado mais de 30 minutos desde que acordára e nada de sua noiva chegar. 

Terminou de arrumar a mesa e foi até a garagem, quando reparou que o carro de sua mulher não estava lá. Pensou em aguardar mais um pouco, mas ainda assim entrou em seu carro e saiu. Foi direto para o mercado que ficava mais próximo, quando no caminho avistou o carro de sua mulher em frente à uma casa grande. Parou o carro e bateu na porta da casa, uma velha senhora abriu a porta e ia se apresentando, mas Otávio logo entrou na casa e gritou o nome dela. Escutou uma porta batendo e uma figura de um rapaz apenas de roupão apareceu em sua frente, enquanto este dispensava a empregada do local.

Um milhão de pensamentos e emoções passavam por Otávio, mas tudo que ele pode fazer foi virar as costas e sair do local. Entrou em seu carro e saiu pelas ruas, enfurecido com o que presenciou e com sua ex-mulher, por estar o traindo.

Enquanto ele acelerava, não notou o sinal vermelho e o cruzou em alta velocidade. Colidiu com um outro carro no qual uma família estava indo para um passeio, porém, apenas o homem da família sobreviveu. Otávio, como ele mesmo dizia, teve o azar de sobreviver.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Saudade

Era o terceiro dia de inverno rígido e ele odiava o frio. Beto criou coragem e se levantou resmungando. Calçou os seus chinelos, vestiu o seu roupão de veludo e caminhou até a sala. Olhou pela janela e viu seu terreno coberto de neve. Os filhos do vizinho já estavam correndo de um lado para o outro e gritando muito, ato comum nos dias como aquele.

Beto foi para a cozinha e preparou uma grande xícara de café. Enquanto a água esquentava, a figura velha e cansada se caminhou até a porta, pegou o jornal e voltou para a cozinha. Com a xícara cheia e o jornal embaixo do braço, cruzou a sala e entrou em seu quarto de leitura. Ajeitou-se em sua poltrona, tomou um gole de café, alcançou o cachimbo na mesinha ao seu lado e o encheu com o tabaco forte que ele mesmo preparava. Deu um belo trago e começou a folhear o jornal, mas sem realmente ler o conteúdo escrito.

Perdido em seus pensamentos, olhou para a sala de estar e pôde ver sua mulher, jovem e linda como sempre, dançando abraçada com ele. Seus filhos passavam correndo ao redor deles, cantando e dançando as músicas estranhas que tocavam no rádio naquele tempo. Ele apanhou o seu casaco e saiu de casa, seguido pelo restante de sua família.

Beto voltou à si, levantou-se da poltrona e dirigiu-se até o banheiro. Se olhou no espelho, ligou a torneira, lavou o rosto e olhou-se novamente. Estava mais jovem, porém, completamente desolado. Seu nariz estava quebrado, seu corpo tremendamente machucado e sua roupa estava cheia de sangue. O silêncio da casa o deixava perturbado, não estava acostumado com aquilo.

Chacoalhou a cabeça com força e tudo estava como antes. A pia estava quase cheia de água. Ele fechou a torneira, foi para o seu quarto e trocou de roupa. Vestiu-se com um terno velho e desbotado. Calçou os seus sapatos e foi até a garagem. Entrou no carro, abriu o portão e dirigiu até o cemitério. No caminho, podia escutar sua mulher e seus filhos conversando no carro. Deixou escapar um leve sorriso. Ao chegar no local, desceu do carro e caminhou debaixo de uma grande nevasca. Parou próximo de três lápides, uma grande e duas pequenas. Nelas haviam a mesma data de falecimento e carregavam o mesmo sobrenome de Beto. Ele se ajoelhou, fez uma pequena prece e voltou ao seu carro.

Até hoje não consegue entender o por que daquele carro ter furado o sinal vermelho.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Desapegar

Saiu de casa e logo acendeu um cigarro. Estava completamente nervosa e precisava de algum novo sentido em sua vida, agora que seria mãe. Silvia caminhava pesadamente pelas calçadas do bairro. Não conseguira digerir ainda aquela informação. Ao avistar um taxi se aproximando, fez sinal para ele parar e entrou. Pediu para deixá-la na casa do Renato. Chegou no prédio e interfonou no 34, onde costumava ser o apartamento dele. Uma outra pessoa atendeu, Silvia perguntou por Renato e quem atendeu disse que não era daquele número e desligou.

Puxou o celular e ligou novamente para Renato, precisava saber o que estava se passando, pois não haviam 3 dias que ela estivera com ele e tudo parecia bem. Novamente, chamou até a ligação cair. Aquela atitude de não atender o telefone era típica dele. Ela já brigou com ele muitas vezes por causa disso e o mesmo se recusa a aprender. Pensou um pouco, aonde poderia estar?

Se lembrou de onde ele costumava passar quando estava com problemas e queria pensar. Começou a correr, talvez ela ainda o alcançasse. Passou por sua antiga casa, que era do lado da casa de Renato. Olhou ao redor e não o encontrou. Continuou seguindo e tentando ligar para ele.

A algumas quadras dali, Renato sentiu o seu celular vibrar e viu que Silvia estava ligando. Ele atendeu:

- Diga!

- Porra Renato, aonde é que você está?

- Por aí. E você?

- Por aí é o cacete, me diga aonde você está, preciso falar uma coisa séria contigo.

- Ok. Me encontra no bar do portuga daqui há 10 minutos.

- Ok.

Desligou o telefone e foi até o bar. O que será que ela gostaria de falar com ele que era tão importante assim? Chegando no bar, pensou em várias coisas. Ela iria se mudar? Teria encontrado o amor de sua vida? Todas os pensamentos que passavam por sua cabeça o deixavam triste, pois ele gostava muito de Silvia. Havia crescido junto dela, foram amigos de infância e namorados na juventude. Depois de um tempo, ele havia se tornado uma pessoa e Silvia outra.

Ao chegar no bar, Silvia encontrou Renato sentado e tomando uma cerveja. Sentou-se junto dele e logo diparou:

- Eu estou grávida.

Renato cuspiu a cerveja, secou a boca e fez uma cara de indignado.

- Sim, eu estou grávida. E creio que você sej o pai.

Ele a encarou por um tempo, não conseguindo acreditar no que ela havia dito.
Ela o encarou e aguardou uma resposta concreta. A cara dele parecia mostrar que ele estava prestes a fugir.

- E quando você descobriu isso? Ele perguntou.

- Faz pouco tempo.

- Merda.

Ele engoliu em seco e pediu um cigarro para Silvia. Ela estranhou o ato, pois ele não tinha o costume de fumar, mas ainda assim entregou o cigarro. Os dois começaram a fumar e olhar para o céu, ambos buscando uma solução para aquela situação.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Anunciação

O sol brilhava com força no alto do céu. Renato xingou baixinho por ter deixado seus óculos em casa. Ele estava indo até o centro, procurar alguns apartamentos para alugar. Havia sido despejado a pouco menos de 2 semanas, pois foi pego no flagra transando com a filha do locador do apartamento. Não era a primeira vez que isto acontecia com ele, parecia seu destino. Na outra vez que fora despejado, era de madrugada e o síndico do prédio o encontrou nu na escada de emergência com a sua filha. Teve tempo apenas de erguer as calças e correr escadaria abaixo.

Enquanto passava por vários apartamentos, sentiu um frio na espinha ao passar por uma casa de madeira completamente destruída e abandonada. O lugar agora parecia ser abrigo de mendigos e drogados, mas antes, Renato costumava chamar aquele lugar de lar. A casa costumava ter flores na varanda, uma passarela que se seguia da calçada até a porta de casa, com um grande jardim em volta. Agora, haviam apenas um mato alto e muito lixo. Começou a caminhar em direção à casa, passando pelo portão destruído e chegando até a porta. Entrou sem bater. A casa estava sem parte do teto, havia muito lixo no local onde costumava ser a sala. Caminhou mais um pouco e foi até o corredor. O primeiro quarto costumava ser o seu, mas agora era apenas um espaço com uma pilha de madeira. Mais a frente, onde costumava ser o quarto de seus pais, havia uma pessoa dormindo. Deu meia volta e saiu da casa, estava na hora de continuar o seu caminho.

No outro lado da cidade, Silvia estava esperando dentro de seu banheiro haviam 10 minutos. Ela estava com um teste de gravidez de farmácia na mão. Olhava para ele e para a janela. Estava tensa, pois sabia que algo de errado estava acontecendo com ela. Se passaram mais 5 minutos, ela olhou para o teste novamente e o deixou cair. O resultado era positivo. Ela gritou:

- Filho da puta!

Trêmula, pegou o celular e discou para o primeiro número de chamada rápida. A ligação chamou, chamou e caiu na caixa. Silvia saiu do banheiro, colocou seu chinelo, pegou sua bolsa e saiu para a rua. Precisava dar a notícia para Renato, pai de seu futuro filho.


Continua.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Lugar comum

Estava pronto para entrar em ação. Gostava de trabalhar sozinho, desde que começou em sua carreira. Jogou fora o restante de seu cigarro, passou direto pela porta e entrou sem chamar a atenção do gerente. Era uma loja de bebidas que ficava no centro da cidade, na esquina de uma rua escura aonde a pior espécie de ser humano se encontrava. Enquanto ia ao caixa, sentiu o seu batimento acelerar como sempre sentia antes de executar seu plano. Ao se aproximar, pegou uma garrafa da bebida mais barata e colocou no balcão. Enquanto o caixa registrava a bebida, ele olhou para trás e verificou que o local estava vazio. Sacou sua arma e encostou o cano frio na testa do gerente. Tinha uma vida em suas mãos e não se importava de jogar ela fora caso fosse necessário. 

Do lado de fora da loja, a rua estava deserta. Ele poderia fazer o que quisesse que ninguém estaria por perto para presenciar.

- Não quero te machucar, só abra o caixa e tudo vai acabar logo.

As mãos do gerente estavam trêmulas, qualquer movimento em falso e feria sua vida escorrendo pela parede atrás dele. Ele abriu o caixa e foi se afastando devagar, indo de encontro com a parade.  O assaltante, sem tirar os olhos do gerente, encheu seus bolsos com o dinheiro, pegou sua bebida, uma carteira de cigarro e saiu da loja.

Ao sair pela porta, começou a se afastar da loja antes que qualquer coisa acontecesse. Já havia guardado a sua arma e estava acendendo o seu cigarro, quando ouviu um barulho de tiro. Ao se virar, o gerente estava brandindo sua arma e gritando, esperando que alguém o ouvisse e pudesse lhe ajudar. Nenhum retorno, todos que estavam por perto conheciam a fama do bairro e nem ousavam em interferir nesse tipo de situação. O assaltante sacou seu revolver e disparou contra o gerente, mas demorou muito. Errou o gerente por pouco e foi atingido por um projétil em seu ombro. Logo derrubou a arma e começou a correr, mas não teve sorte. Outro disparo o atingiu pelas costas, assim, caindo de cara no chão. Teve forças para se virar e observar a cara do gerente. Enquanto observava o cano brilhante da arma apontada para o seu rosto, o tempo ao redor parecia passar mais devagar, o fazendo pensar em sua vida feita de escolhas que sempre pareceram sensatas. Seu primeiro beijo, a primeira namorada, o primeiro assalto, a primeira morte. Cresceu em um mundo aonde a única lei era matar ou ser morto.

E lá estava ele, dando o seu último suspiro. O clarão da arma foi a última coisa que viu em sua vida.

O gerente recolheu o dinheiro do bolso do cadáver e voltou para sua loja, como se nada houvesse acontecido. Essa era apenas mais uma noite nas ruas do centro.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Até o fim

Continuou rumando e observando atentamente cada uma das sombras, aprendendo com o que elas estavam o mostrando e reavaliando suas atitudes ao longo de sua vida. Ele estava no início de seus 40 anos, não tinha uma perspectiva de vida e cometeu muitos erros. Se considerava velho demais para concertar suas cagadas e apenas aceitava elas. Porém, após os acontecimentos recentes, começou a pensar melhor sobre o assunto e se arrepender. Poderia ter tido outra vida, ser sincero com os outros e principalmente com ele mesmo.

Quando chegou ao fim da rua, enxergou uma pessoa sentada no meio fio, de pernas cruzadas e olhos fechados. Havia uma expressão de serenidade em sua face. Porém, por algum motivo ele não conseguia chegar perto daquela pessoa. Quanto mais se aproximava dela, mais distante ela ficava. Gritou para ela, pulou e tentou chamar sua atenção de qualquer maneira, mas não obteve sucesso. Calmamente, a pessoa que estava sentada levantou-se e disse:

- Tenha calma. As respostas para os seus questionamentos virão com o tempo.

Percebeu que era um homem muito parecido com ele. Porém, o sujeito não tinha barba e parecia ser mais jovem, com mais vida. Decidiu perguntar para a figura:

- Certo. E quem é você?

- Eu sou você, porém, fiz escolhas diferentes em minha vida e cá estou. Pelo visto, tracei um bom caminho...

Não podia acreditar no que estava vendo e ouvindo naquele momento. Tivera um encontro com ele mesmo, percebeu o quão diferente seria caso tivesse traçado outro rumo. Porém, preferiu se abraçar ao bar e às ruas da cidade. Virou as costas para si mesmo e começou a andar sem rumo, quando sentiu outro baque. Dessa vez, em sua nuca.

Se encontrou no mesmo lugar em que tinha caído da outra vez. A chuva já havia parado e o dia amanhecido. Uma senhora passou ao seu lado e perguntou se estava tudo bem. Ele assentiu com a cabeça, se levantou e seguiu seu caminho. Estava confuso, pois não entendi o que havia se passado com ele, mas sabia que era sério e que deveria trilhar algum rumo em sua vida.

Enquanto caminhava, passava em frente a um bar. O cheiro de álcool o deixava atraído.

Pensou, "por quê não?" e entrou.

Pediu uma dose de cachaça. Mais uma. A terceira. Logo abraçou a garrafa e saiu sem rumo, debaixo da chuva forte e pelas ruas movimentadas da cidade, que não o deixava em paz.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Assalto

O cheiro de cachaça dava para ser sentido de longe. Ele estava completamente bêbado e voltando para casa quando a chuva começou a cair. Cobriu sua cabeça com a touca de sua jaqueta e continuou o seu caminho. Não se lembrava de onde viera e nem o por quê havia bebido tanto. Seus pensamentos estavam completamente confusos e sua mente trabalhava muito pouco, quando sentiu o baque forte na parte de trás de sua cabeça e caiu de joelhos no chão.

Acordou com o corpo todo ensopado, uma grande dor na cabeça e um vazio no peito. A princípio não conseguiu compreender tudo aquilo, pois havia todos os seus pertences e estava no mesmo local em que caiu. Continuou caminhando para casa, procurando algum sentido para alguém o nocautear no meio da madrugada. "Seria apenas uma diversão doentia da pessoa? Nocautear os outros na rua e sair como se nada houvesse acontecido?"

Ao chegar em casa, foi direto para o chuveiro. Ao tirar sua camiseta, percebeu que havia um grande buraco em seu peito. Não conseguia compreender aquilo. Olhou-se no espelho e não pode enxergar nada. Apenas uma cavidade em seu peito. Aquilo explicava a sensação de vazio, mas ainda não fazia sentido em sua cabeça. Haviam roubado o seu coração? Como ele poderia estar vivo? Nada fazia sentido naquele momento.

Vestiu-se e foi até a cozinha, preparou uma dose caprichada de sua melhor bebida e foi até a janela. De repente o mundo todo escureceu. Não enxergava as pessoas nas ruas, apenas sombras.

Sua cabeça começou a girar, nada mais fazia sentido. Pegou a chave de casa e saiu em busca de uma explicação. Andando pelas ruas, as sombras deslizavam rapidamente pelo chão. Cada uma delas carregava uma lembrança, sempre atitudes ruins que ele tomou em sua vida e que o fizeram perder coisas que seriam importantes para ele hoje em dia.


Continua.

Dor no pescoço

Era um rapaz inocente. Sempre se deixava enganar e não se importava com nada. Tentava convencer as pessoas de que era um outro alguém, mas não conseguia. 

Com o passar do tempo, começou a perceber que havia de mudar sua atitude, mas não fez nada para isso acontecer. Começou a ter os dias cinzentos e a alma pesada. Sua cabeça parecia mais pesada, sua visão era sempre do chão.

Cortou as palavras, as ações e reduziu sua presença. Abraçou a solidão e formou um par com ela.

Abandonado dentro de seus próprios pensamentos, foi diminuindo de tamanho até sumir, deixando apenas um vazio em seu lugar.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Azul

O velho pescador despertou pontualmente às 06:15, como ele sempre fazia. Levantou e se manteve de pé, seguindo o balanço do mar. Dentro de seu barco, caminhou lentamente para a parte externa e observou atentamente o mar. Preparou o seu arpão, sua vara de pescar e sentou.

Acendeu o seu velho cachimbo de madeira e fitou o mar, mas não era nele que estava prestando atenção. Estava lembrando de casa, de sua família. Tinha saudade até de seus vizinhos. Uma movimentação anormal estava ocorrendo em sua frente, mas ele demorou demais para perceber.

Era ela, o amor de sua vida, o que o afastou de todos que gostava e o levou para o meio do mar. Com todo o ar que tinha no pulmão, gritou:

- Agora eu te pego!

Levantou-se rapidamente e foi até o arpão. Com um movimento rápido, focalizou o seu alvo na mira e disparou sem pensar duas vezes. O tiro passou reto, longe do alvo.

A grande figura estranha que o pescador tanto amava e odiava se lançou violentamente contra o barco. O pescador, antecipando este movimento, se lançou contra ela e juntos afundaram. À medida que foram afundando, a pressão da água ia aumentando e suas ideias iam ficando mais confusas. Até o ponto em que pararam, se observaram profundamente e se aceitaram como complemento um do outro.

Deviam ficar juntos, pois eram um só.







terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A separação entre a alma e o corpo.

- Assine aqui, aqui e ali. Pronto, vocês estão oficialmente separados.

A alma se afastou lentamente, observando o que deixou para trás. Sem arrependimento ela partiu para uma nova experiência. Experimentou todos os tipos de culturas, tempos, lares, costumes e viveu tudo o que podia. Após tudo isso, resolveu visitar o seu antigo corpo para ver como estava.

Ele ainda estava lá, no mesmo lugar da separação. Parado, intacto. Estava mais magro e pálido do que a última vez que o vira. Toda uma vida eles tiveram juntos, adquirindo experiência através de muitos erros e poucos acertos. Com muita pena dentro de si, resolveu reatar a relação com o seu corpo. Mostrou à ele todas as coisas que havia presenciado e o deixou a par de tudo.

Lentamente, o corpo começou a abrir os olhos e mexer a boca, tentando falar algo mas completamente sem sucesso. Logo, um rapaz entrou no quarto e olhou para o corpo. Espantado, chamou outros rapazes e moças que ficaram observando o corpo e fazendo anotações.

Naquele momento, a alma inquieta tentava dar forças para o corpo fazer algo relevante, que acabasse com toda aquela situação desconfortante. Porém, o corpo nada pôde fazer.

Ele acabara de sair do coma.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Postumo

Levou a mão direita para o lado esquerdo do peito e agarrou com força, mas de nada adiantou. Sua vida já estava no fim. Com um último suspiro, tudo escureceu em sua volta e seu corpo caiu duro no chão.

Uma luz surgiu por um buraco bem pequeno. Deslizou por este buraco e ao observar ao redor, viu o seu corpo no chão. Não tinha mais corpo. Estava livre. Mas ele não pôde entender isso tão cedo. Apenas lembrava de coisas que aconteceram durante vários anos de sua vida e acompanhava o seu corpo de longe. Observou sua família toda em volta de seu corpo, uma ambulância o levando para uma igreja, seu funeral e seu próprio sepultamento.

Ficou próximo de seu corpo por aproximadamente cinco anos, pois não sabia o que fazer. Ele apenas estava lá. Apenas "era".

Certo dia se deu conta do que havia acontecido. Saiu de perto de seu corpo e vagou mundo afora, buscando sentido para a sua... vida? Não sabia exatamente o que era, mas sabia que não era vivo. Tudo o que ele podia fazer a partir daquele momento era vagar, sem nenhum foco, sem nada. Após a sua morte nada mais parecia fazer sentido.


As vezes ele reparava que algumas crianças podiam o enxergar. Mas não podia fazer nada além de ser.

Ser? Afinal de contas, ser o quê?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Para sempre.

Desde pequeno, Josias é apaixonado por música. Vivia fazendo barulho em tudo quanto é coisa. Copo, varal, revista, garrafa. Em suas mãos, tudo era válido como instrumento musical. Sua mãe logo reparou que o garoto tinha algo diferente e o matriculou em uma escola de música.

Josias foi ao céu.

Violão, flauta, piano, bateria, baixo, acordeon. Tudo estava ao seu alcance. Começou dominando os instrumentos de sopro, foi de gaita de boca à gaita-de-fole. Depois passou pelas cordas, de quatro para seis, de seis para dez e de dez para doze delas. Cada instrumento com sua sonoridade específica. Não se deu muito bem com a percussão, pois era melhor com os dedos do que com toda a mão.

Anos se passarem e Josias virou compositor. Sinfonias, serenatas e baladinhas de amor. Compôs junto de grandes nomes do meio musical. Era grande o talento de Josias.

De tão apaixonado pela música, pelo som, passou por várias mulheres, mas com nenhuma se casou. No fim de seus dias, já muito fraco e cansado, o velho Josias abraçou o seu cavaco. E o tocou. Horas se passavam e ele sorria e tocava. A noite entrou e ele não parou, muito pelo contrário, intensificou e diversificou os instrumentos.

O dia nasceu e Josias adormeceu. Deixando para trás uma história de amor com pautas, acordes, notas, cordas. Todos misturados em uma grande composição chamada vida.

Diversas de suas canções, anos depois, foram regravadas com várias versões diferentes, como forma de homenagem. Josias ainda vive, em suas músicas e em vários corações.





quarta-feira, 17 de abril de 2013

Loucura

Jorge apertou um botão que se encontrava na parede, em cima dele.

Após cinco minutos, entraram dois enfermeiros em seu quarto. Um carregando um remédio injetável e outro apenas sorria.

- Jorge, agora preciso que você fique calmo e conte até 10, ok?

- Mas o quê está acontecendo, a quanto tempo estou aqui? Quem são vocês? Aonde eu estou?

- Calminha Jorge, tudo ficará bem...

Assim, um dos homens segurou o braço de Jorge e o outro aplicou a injeção diretamente em sua veia. Jorge ficou calmo, sem pensar em nada, dopado. 

- Agora escute, meu amigo. Isto aqui é um hospital psiquiátrico. Você foi encontrado gravemente ferido na rua e foi encaminhado ao hospital em estado de coma. Você balbuciava coisas sem sentido. Sua mulher disse que você estava agindo de maneira estranha ultimamente, assim, ao melhorar, te encaminharam para cá. Mas tudo virá a tona.

Jorge conseguiu entender o que ele quis dizer, e perguntou:

- Mas, e o Carlos? E o Assassino? Alguém fez algo sobre isso? O que aconteceu?

- Amigo, tenho algo pra te falar. Aquele acidente que você escreveu sobre, com a morte do filho do governador e a cunhada dele? Parece que prenderam o assassino. 

- E o terceiro corpo? De quem era?

- Não era do assassino, como todos acreditavam. Aquele corpo estava lá pois o assassino não queria ser descoberto, então, fez parecer como se aquele homem fosse o criminoso. O corpo era de um tal de Roberto, nada de muito destaque. Triste fim para aquele sujeito.

Jorge estava voltando à sua consciência. Concluiu que estava ficando louco, que por quase tudo que passou naqueles dias era mentira, era apenas coisa de sua cabeça.

Mas ainda restava saber, quem matou Carlos? Quem é o assassino?

Antes que tivesse a chance de perguntar isso aos enfermeiros, eles se retiraram e uma figura estranha entrou em seu quarto. Parecia uma visita.

Fim da parte 8.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ilusão?

"Merda, isso não pode estar acontecendo comigo", pensou Jorge enquanto tentava se recuperar de toda aquela agitação em sua vida.

Enquanto seguia está linha de pensamento, ele estava ciente de que voltaria para casa e não encontraria ninguém la, mandou sua mulher e seu filho irem para um hotel bem longe dali. Estava indo para a casa de Carlos, conversar com sua esposa. Ao parar no sinal, um carro inteiro preto parou ao seu lado, os vidros se abaixaram. Duas pessoas mascaradas apontaram para ele, mostraram as armas e atiraram. Deram vários tiros e partiram.

Jorge teve força para abrir a porta e cair para fora do carro. Sua visão ia se apagando, mas teve forças para ver o bilhete escrito "Sorria" em vermelho, antes de apagar. A polícia chegou ao local e o encaminhou para o hospital. Ligaram para sua família e seus amigos. Todos se apressaram para ir ao hospital. Após alguns minutos, Jorge entrou em coma. E nesse estado ficou, por mais de 15 dias.

Ao abrir os olhos, depois de todo esse tempo, Jorge enxergava tudo embaçado e com poucos traços. Enxergou um homem alto, sentado ao pé de sua cama. Estava trajado como se estivesse indo para uma festa elegante e sorrindo feito uma criança após ganhar algo que tanto desejava.

O homem olhou no fundo de seus olhos e disse:

- A curiosidade matou o gato, Jorge. E parece que suas sete vidas estão acabando. Pare de se meter, ou se não...

Jorge limpou os olhos, aquele homem não estava lá.

O que estaria acontecendo?


Fim da parte 7.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Esclarecimento.

Enquanto a esposa de Jorge tentava o acordar, ele estava tendo um pesadelo horrível.

Jorge se encontrava em um longo corredor. Caminhava aflito por ele, tentando abrir todas as portas por que passava, mas não obtinha sucesso algum. Escutou risadas atrás dele, olhou e se espantou. Carlos estava abraçado no assassino que todos acreditavam que estava morto. Os dois estavam com uma máscara vermelha e uma camisa social manchada de sangue. Caminhavam lentamente na direção de Jorge, sempre rindo. Atrás deles, um desconhecido trajava a mesma roupa, porém ele estava calado, apenas andava.

Jorge começou a correr, mas o corredor só parecia aumentar, não havia fim algum. De repente, em sua mão, surgiu uma arma. Apontou ela para os sujeitos e ela não funcionou. O gatilho travou. Ao abaixar a arma e ela ficar virada para o seu pé, ele sentiu o gatilho destravando e então compreendeu o que devia acontecer.

Apontou a arma para sua cabeça, respirou fundo, click.

Abriu os olhos. Estava encharcado de suor, respirava rápido e sua cabeça explodia de dor. Se encontrava em seu quarto, com um copo d'água em seu criado mudo.

Sua cabeça trabalhava rapidamente, aquele pesadelo não foi a toa. Ele significava algo.

Fim da parte 6.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Descanse em paz.

Jorge sabia que o pior estava para acontecer. Após a polícia chegar em sua casa, a imprensa e todos os curiosos, ele só queria dormir.

Entrou em casa, subiu as escadas, foi para o quarto, se deitou. Pouco tempo depois, estava desmaiado.
Sonhou com coisas das quais preferiu não comentar. Coisas que só ele entendia e tinha vergonha de tal compreensão.

Ao acordar, notou um silêncio incomum em sua casa. Não escutava o barulho da televisão no andar de baixo, ou o barulho do seu filho brincando. Saiu da cama e foi correndo para a escada. Tropeçou e caiu por ela, parando apenas no primeiro andar. Desmaiou.

Acordou no mesmo lugar, horas depois, com um sangue seco em sua roupa. Levantou rapidamente, mas foi surpreendido por uma tontura. Se apoiou na parede e caminhou lentamente para a cozinha. Não havia ninguém em casa.

Ao abrir a porta, se deparou com uma trilha de sangue que se seguia até a porta do seu carro. Espantado, Jorge acompanhou a trilha. Espiou pela janela do motorista e sentiu uma grande tontura. Desmaiou novamente.

Sua esposa chegou do mercado, o avistou no chão e correu para ver o que havia acontecido. Quando olhou para dentro do carro, não pode acreditar. Se ajoelhou ao lado de seu marido e tentou acordá-lo, mas foi infeliz em sua tentativa.

O corpo dentro do carro era do Carlos.

Fim da parte 5.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Surpresa.

Jorge estava afoito. Tirou o celular do bolso e ligou para Carlos, que era o seu chefe.

- Jorge, são três horas da manhã e você me acordou. O que você quer? 

- Carlos, sou eu, Jorge. Você precisa me ajudar. Se lembra daquele problema que tumultuou a cidade no ano retrasado?

- Lembro sim. O assassino morreu e caso encerrado.

- Acho que tem uma falha nisso. Pode vir na minha casa?

- Agora?

- Sim. Você vai querer ver isso.

- Espero que seja importante...

Jorge escutou o telefone de Carlos desligar. Agitado, ele entrou e viu sua esposa dormindo. Se esforçou o máximo para não fazer barulho algum. Pegou sua câmera, seu bloco de anotações e sua caneta. Saiu de casa e correu para a marca de pneu que o sedan preto havia deixado em frente à sua casa. 

Enquanto fotografava o local, seu chefe acabara de chegar. Ele saiu do carro, ainda de pijamas, acendeu um cigarro e caminhou até Jorge.

- Ainda bem que você chegou. Olhe isso.

Carlos abriu a boca e deixou o cigarro cair. 

- Você já chamou a polícia? 

- Ainda não. Quis registrar tudo antes deles chegarem.

- Ótimo. Não consigo acreditar no que vejo...

Eles estavam olhando para uma foto onde Jorge observava os corpos do acidente recente. E preso à foto, um bilhete com a palavra "Sorria" escrita em vermelho.

Este bilhete era característica do assassino, que até então, eles acreditavam que estava morto.


Fim da parte 4.